quarta-feira, 24 de maio de 2017

Um "poder" acima dos outros


Leia o artigo de Luiz Carlos Prestes publicado na imprensa às vésperas da promulgação da Constituição de 1988, em que é desmascarado o "poder militar", acima dos três poderes da República, consagrado no Artigo 142 da nova Constituição. Artigo que foi evocado pela nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) ao tentar explicar o decreto presidencial de 24 de maio de 2017, publicado em uma edição extra do Diário Oficial da União - que prevê o emprego das Forças Armadas na Esplanada dos Ministérios entre 24 e 31 de maio. Segue um trecho da nota da Secom:

“Diante de tais circunstâncias, o Presidente da República, após confirmada a insuficiência dos meios policiais solicitados pelo presidente da Câmara dos Deputados, decidiu empregar, com base no artigo 142 da Constituição Federal, efetivos das Forças Armadas com o objetivo de garantir a integridade física das pessoas, proporcionar evacuação segura dos prédios da Esplanada e proteger o patrimônio público, tal como foi feito anteriormente em vários Estados brasileiros. Restabelecendo-se a ordem, o documento será revogado”, diz a nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom). Ainda de acordo com o comunicado, o presidente “não hesitará em exercer a autoridade que o cargo lhe confere sempre que for necessário”.


terça-feira, 23 de maio de 2017

1917 - Quatro notas no centenário da Revolução Bolchevique

Por Higinio Polo* 


Recordar a revolução bolchevique não é um exercício de nostalgia do passado mas um tempo de aposta no futuro, no socialismo e no carácter social que devem ter as forças produtivas. A revolução de 1917 foi o ponto de partida das novas lutas revolucionárias no mundo, e a sua contribuição para a construção do socialismo não desapareceu, porque o capitalismo não pode resolver os problemas da humanidade. Aqui reside o valor da revolução bolchevique e da visão de Lénine.





1. 1917 é uma data germinal, que pôs ante os olhos dos trabalhadores do mundo a certeza de que acabar com o capitalismo e construir o socialismo é possível. Nessa data termina o velho mundo burguês que tinha ensanguentado o planeta no século XIX e inicia-se uma nova era, onde a união operária e socialista criada pela revolução bolchevique enfrentará o projecto de modernidade capitalista que foi o nazismo. A revolução bolchevique mudou radicalmente o destino da Rússia e do mundo. Cinquenta anos depois da publicação de O Capital, a Rússia convertia-se numa referência global, e a revolução levou o país a ser uma das duas superpotências mundiais.

O empenho da direita liberal em rebaixar a revolução bolchevique a uma espécie de «golpe de Estado» não tem qualquer credibilidade, para além da utilidade propagandística para a direita, nem resiste à prova dos factos: a revolução de Outubro contou com um impressionante apoio popular que, começando em Petrogrado, percorreu toda a geografia russa, num clima revolucionário onde milhões de trabalhadores, soldados e camponeses se organizavam e se reconheciam nos sovietes. Essa revolução pôs a igualdade entre os seres humanos no centro dos objectivos políticos e das questões universais, pôs mãos à obra na construção de uma sociedade sem classes, no tempo em que eram visíveis as multidões operárias nos combates políticos do século XX.

Também não foi um banho de sangue: esquece-se com frequência, mas a revolução bolchevique apenas causou seis mortos, e foi a intervenção imperialista em ajuda dos restos do czarismo que fez rebentar a guerra civil posterior que causou uma mortandade que superou a da grande guerra. Se de 1914 a 1917 a Rússia sofreu entre dois e quatro milhões de mortos, aquela agressão das potências capitalistas à Rússia revolucionária, depois do fim da guerra, causou mais oito milhões de mortos, por causa dos combates, da destruição das colheitas e da fome. Sobrepor-se a essa situação, reconstruir o país, foi uma tarefa de titãs, mas não seria para a Rússia a pior prova do século XX.

A revolução sofreu um ataque que nenhum outro país no século XX teve que suportar: do ataque dessas treze potências capitalistas (desde os Estados Unidos até à França, a Checoslováquia, a Grã-Bretanha, a Polónia, o Japão) que apoiaram os brancos czaristas na «guerra civil» dos anos vinte, passou-se às ameaças latentes de Londres e de Paris e, depois ao ataque da Alemanha nazi que abriu a Segunda Guerra Mundial onde a URSS perdeu vinte e sete milhões de cidadãos. É costume dar pouca atenção ao que implicou administrar um país que tinha perdido quase quarenta milhões de pessoas num período de trinta anos, e pô-la à cabeça do desenvolvimento no mundo posterior à guerra de Hitler. Além disso, no pós-guerra, quando quase não se tinha iniciado a reconstrução, teve logo que enfrentar a pressão ocidental derivada da doutrina Truman que deu início à guerra-fria.

Depois do «comunismo de guerra» e da NEP, Outubro começou a planificação estatal da economia, impugnando o monopólio burguês que tinha conquistado todos os países. No plano interno, estabeleceu-se a jornada laboral de oito horas, que ficaria posteriormente reduzida a sete horas, asseguraram-se as leis para a igualdade entre homens e mulheres; eliminou-se o analfabetismo; criou-se o primeiro sistema sanitário público e gratuito do mundo, a reforma aos sessenta anos para homens e mulheres, um sistema universal de pensões, garantiram-se por lei vinte meses de baixa por maternidade, e a segurança no trabalho fez com que os trabalhadores não temessem o desemprego, ao mesmo tempo que dispunham de casas cedidas pelo Estado, e tantas conquistas sociais que aqui não podem ser detalhadas. A União Soviética pôs sempre a solidariedade entre os povos, o internacionalismo, como um dos seus fundamentos, e nunca teve uma política agressiva contra o Ocidente. Essa mentira, repetida e amplificada pela propaganda, teve como objectivo estender o medo entre as populações dos países capitalistas e disciplinar os aliados europeus dos Estados Unidos à volta da NATO, o novo instrumento de intervenção imperialista.

Outubro converteu um país atrasado numa potência industrial e científica em poucos anos, ainda que acompanhada de uma dura repressão de Estaline. O primeiro estado socialista da história teve como conceitos definitórios o trabalho e a função determinante da classe operária na sociedade; a amizade e a solidariedade entre os povos, o internacionalismo, a justiça social, a cultura e o progresso científico, a rejeição do nacionalismo e da opressão. Houve também traços negativos: a dura repressão política (filha do temor nascido da guerra civil, do acosso militar posterior, da agressão nazi e, secundariamente, das lutas internas de poder), o medo ante os órgãos do Estado, as evidentes insuficiências democráticas, e a ineficácia ligada à burocratização e aos focos de corrupção, bem como o aparecimento de sinais de irresponsabilidade e à negligência no trabalho que, não obstante, não invalidam como pretende a direita o conjunto da experiência soviética. Os laboratórios ideológicos do liberalismo continuam a colocar a ênfase na repressão, ainda que aludam aos mortos causados pela revolução bolchevique e o estado socialista, costumam ocultar a enorme mortandade causada pelo capitalismo tanto na expansão colonial do século XIX, como ao longo do século XX. E as matanças não pararam com o século XXI: aí está o caos do Médio Oriente provocado pelas agressões e guerras dirigidas pelos Estados Unidos.

O mundo não é melhor sem a URSS: nem sequer a ameaça atómica desapareceu, apesar dos supostos «dividendos da paz» que o neoliberalismo prometeu. Nem sequer se reduziram os perigos da guerra: de acordo como o SIPRI [1], o comércio mundial de armas está no ponto mais quente desde o fim da guerra-fria, e o caos criado pelos Estados Unidos no Médio Oriente é uma causa evidente disso, juntamente com a desconfiança pelos propósitos de Washington. Desde logo, o mundo não é melhor para os habitantes do antigo espaço soviético, como o evidenciam todas as sondagens, apesar de um quarto de século de veneno nacionalista ter feito aflorar os traços mais desprezíveis do ser humano em muitos territórios. Como na Ucrânia, onde os grupos paramilitares fascistas percorrem desafiantes as ruas.

2. O caminho aberto por Outubro de 1917 termina abruptamente quando se arreou a bandeira no último dia do triste ano de 1991, enquanto Yeltsin e os seus comparsas se emborrachavam nas estâncias do Kremlin. A reforma iniciada por Gorbatchov, saudada com entusiasmo porque prometia a renovação e o «retorno a Lenine», derivou numa desordem económica e organizativa que, longe de resolver os problemas da União Soviética, os agudizou, fazendo aparecer a escassez e alimentando nacionalismos destruidores e reaccionários.

Depois das vacilações e dos graves erros de Gorbatchov, foram os próprios dirigentes do país, com Yeltsin á cabeça, juntamente com a ambição de personagens como o ucraniano Leonid Kravchuk, o bielorrusso Stanislav Shushkiévich, seguidos pelo uzbeque Islom Karimov, o cazaque Nursultán Nazarbáyev, e o azeri Gueidar Aliev, entre outros, que se lançaram na destruição do país. O Tratado de Belavezha, subscrito por Yeltsin, Kravchuk e Shushkiévich em 8 de Dezembro de 1991, violou a Constituição soviética e desrespeitou a vontade da população, que se tinha pronunciado em referendo de Março de 1991 rejeitando a divisão da URSS, e impôs a destruição do país, oculta com a roupagem da CEI, uma ficção apressadamente criada para encobrir o medo ao vazio. Destruíram também o COMECON e o Pacto de Varsóvia.

A destruição não era uma inevitabilidade, como continua a manter a doutrina liberal. As reformas necessárias na URSS eram possíveis, mas o projecto gorbachoviano apenas conseguiu gerar o descontentamento e o caos. A paralisia política de Gorbatchov na sua etapa final e o estímulo à divisão impulsionado por Yeltsin, Kratchuk e Susshkiévich só podem qualificar-se como traição ao seu próprio país: a retórica nacionalista chegou depois, com o objectivo de consolidar o seu próprio poder em todas as repúblicas órfãs da URSS.

É certo que já tinham aparecido algumas reclamações nacionalistas na Arménia e no Báltico, ainda que essas tensões nacionalistas na Arménia e nas três repúblicas do Báltico tivessem sido estimuladas por dirigentes como Alexander Yakovlev, enquanto no Cáucaso a incompetência governamental permitiu também o crescimento nacionalista: na Geórgia, o conservador e ditatorial Zviad Gamsajurdia pôde alcançar a presidência, graças à negligência e à falta de iniciativa de Edvard Shevardnadze. No Azerbaijão, o traidor e trânsfuga Gueidar Aliev apressou-se a apoderar-se de todos os recursos do poder. Na Arménia, onde existia uma forte consciência nacional, rebentou uma dinâmica de guerra com o Azerbaijão depois da escalada de tensão que teve a sua origem na matança de Sumgaít, onde bandos de azeris atacaram a população arménia, assassinando dezenas de pessoas, numa confusa provocação de que ainda hoje se desconhecem os seus inspiradores. A guerra civil entre arménios e azeris fez o resto: durou três anos, e as feridas ainda não sararam passados que foram vinte e cinco anos. Nas cinco repúblicas soviéticas da Ásia central, onde não havia reclamações nacionalistas, os dirigentes apressaram-se a proclamar a independência depois de se conjurarem para a assinatura do Tratado de Belavezha. No seu conjunto, as guerras e conflitos que então se iniciaram (na Moldávia e na Chechénia, em Nagorno-Karabaj e na Ossétia, no Cáucaso e na Ásia central), causaram a morte de centenas de milhares de pessoas.

Os Estados Unidos olharam com bonomia as ditaduras criadas em muitas das antigas repúblicas soviéticas, fecharam os olhos à corrupção, à repressão política e aos traços grotescos dos novos regimes, que vão desde a corrida ao dinheiro das filhas de Karimov, até à nomeação de Dariga Nazarbayeva, filha do ditador Nazarbayev, como vice-primeira ministro do Cazaquistão; passando pelo filho de Aliev, Ilham Aliev, convertido em novo ditador que, por sua vez, acaba de nomear sua mulher, Mehribian Alieva, vice-presidente do país.

À incompetência e ao oportunismo dos convertidos e trânsfugas que iniciaram a fuga em frente na busca da consolidação do seu próprio poder, juntam-se muitas provocações, a maioria das quais continuam sem clarificação. Conhecemos algumas, como o massacre da torre da televisão em Vilna, capital lituana, em Janeiro de 1991: ali, ocorreu uma matança de catorze pessoas que comoveu o mundo, enquanto as chancelarias e a imprensa internacional acusavam o exército e o governo soviéticos. No entanto, sabemo-lo agora, foi um massacre provocado pelos nacionalistas de Sajudis [2] e pelo próprio governo nacionalista lituano, cujos pistoleiros dispararam contra os seus próprios seguidores, para acusar a União Soviética e precipitar a independência. Tudo isto foi reconhecido anos depois por Audrius Butkevicius, então chefe militar do governo lituano. Não foi a primeira nem seria a última mentira: em 2008, quando o governo georgiano de Míjeil Saakashvili (um oculto agente da CIA que confiava que a sua aventura seria amparada por Washington e a NATO) lança uma provocadora ofensiva militar sobre a Ossétia do sul, acontecimento que originou uma breve guerra com a Rússia, noticiada na CNN acompanhada de imagens de tanques georgianos como se fossem russos, ao mesmo tempo que a destruição causada pelos bombardeamentos da Geórgia na Ossétia era apresentada como se fossem os efeitos de ataques russos na cidade de Gori, onde se passou muito mais do que notícias desvirtuadas. Depois de tudo, esses partidários da mentira têm consumados professores em Washington, um dos quais foi o secretário de Estado Colin Powell que, em 5 de Fevereiro de 2003, chegou a agitar um tubo que dizia poder conter antrax, perante os olhares atónitos dos membros do Conselho de Segurança; a quem também mostrou diapositivos que, segundo o governo norte-americano de Bush, demonstravam que o Iraque tinha «armas de destruição massiva». Era tudo mentira.

É uso recorrer-se à acusação de «teorias conspiratórias da história» para desactivar algumas nefastas evidências. No entanto, as coisas são mais simples e, ao mesmo tempo, mais complexas: todas as potências internacionais defendem os seus interesses e os seus projectos e utilizam para isso todo o tipo de recursos, da diplomacia à pressão política. Muitas recorrem à mentira, às provocações e à organização de grupos terroristas e, nesse tipo de acções, os Estados Unidos e os seus aliados dão cartas.

Sabemos hoje, por exemplo, que os serviços secretos norte-americanos trabalharam desde Bacu e com a cumplicidade de Aliev para incendiar a Chechénia e criar novos focos de conflito no Cáucaso, e não renunciaram a continuar futuramente a jogar essa cartada. Washington não só conserva em seu poder a capacidade de reactivar conflitos no sul da Rússia, como move os seus peões na Ásia central para dificultar um hipotético reagrupamento das velhas repúblicas soviéticas em torno de Moscovo. Por vezes, basta chegar lume à mecha, e as guerras tomam logo dinâmica própria.

Os problemas que a Rússia enfrentava no final da década de oitenta (devido à incompetência dos governos de Gorbatchov, que os agravaram com projectos e iniciativas que criaram graves disfunções na economia soviética) eram uma brincadeira se comparados com o desastre apocalíptico que chegou na década de noventa, sob a direcção de Yeltsin, Chubais, Gaidar e Chernomirdin (assessorados pelo governo norte-americano, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e peritos estado-unidenses), que destruiu a economia, colonizou a estrutura do Estado e, de acordo com diversas investigações, provocou uma atroz mortandade entre a população soviética: só na Rússia (que contava com metade dos habitantes da URSS), a investigação de David Stucker, da Universidade de Oxford, de Lawrence King da Universidade de Cambridge e Martin McKee da London School of Hygiene and Tropical Medicine, publicada pela revista médica Lancet, chegou á conclusão que a terapia de choque de Yeltsin tinha causado um milhão de mortos. Aquele delirante programa foi possível graças ao golpe de estado de 1993, que causou uma matança em Moscovo e noutras cidades, e que contou com o apoio do Ocidente, que amparou uma espécie de via militar para o capitalismo. A destruição da URSS permitiu às novas elites surgidas da confusão gorbatchoviana e aos seus comparsas apoderarem-se das propriedades públicas e garantir o seu poder em todas as repúblicas.

O golpe de Estado de Yeltsin em 1993, abençoado por Clinton, Major, Khol e Mitterrand, numa irresponsável e delirante operação, levou quase à destruição da própria Rússia como afirma a própria Helène Carrère d’Encausse. Na opinião do Partido Comunista russo, vinte e cinco anos depois do desaparecimento da URSS, as suas consequências continuam por superar. A privatização da economia, levada a cabo por delinquentes, destruiu milhares de empresas e aglomerados industriais, tornou possível que a maior parte da riqueza soviética, quer na Rússia quer nas outras repúblicas, esteja hoje em mãos privadas.

3. Putin representa hoje a nova direita conservadora russa, patriota, de complexa significação: por um lado utiliza os orçamentos públicos e os recursos do país para o seu próprio enriquecimento, criando uma oligarquia obscenamente rica, ao mesmo tempo que se degradam as condições de trabalho, o direito à habitação, à saúde e à educação dos cidadãos; por outro, deteve a destruição do país e iniciou a sua reconstrução, afastando o fantasma da destruição da própria Rússia (objectivo a que não renunciaram os estrategos do Pentágono e dos serviços secretos norte-americanos). Na política interna, Putin não teve dúvidas em aplicar programas neoliberais que prejudicam os trabalhadores e a maioria da população. E ainda que não desistam de privatizar, mantêm importantes áreas de propriedade públicas: o Partido Comunista russo criticava em Fevereiro de 2017 a tentativa do governo de Médvedev de privatizar quase oitocentas empresas de propriedade pública. Putin é um exemplo mais desses dirigentes que fizeram da política e do exercício do poder o centro da sua existência, personagens que se adaptam a qualquer época e que se sustentam em complexos equilíbrios sempre que isso lhes permita manter-se no poder.

Se bem que a sua política externa procure recuperar o protagonismo perdido, não está no centro das suas preocupações combater o imperialismo norte-americano, embora esteja consciente que este, por trás das sangrentas aventuras de Washington no Afeganistão, no Iraque e na Líbia e a expansão da NATO, ameaça as fronteiras da própria Rússia, e enfrente os propósitos imperialistas norte-americanos na Síria, ao mesmo tempo que alinhava uma aliança estratégica com a China, cujo objectivo é limitar o poder estado-unidense no mundo. Uma parte da esquerda pouco prudente, que se alimenta de esquemáticas análises sem matizes, chegou a equiparar a política externa russa com a norte-americana, aludindo a um suposto imperialismo comum, ainda que em confronto, esquecendo que enquanto Washington tem mais de setecentas bases militares nuns cento e vinte países do planeta, Moscovo só tem uma base no exterior. Outra parte confunde Putin com um dirigente comunista.

O partido de Putin, Rússia Unida, navega entre a complexidade e a ambiguidade: o seu nacionalismo leva-o a assumir com orgulho a condição de superpotência da URSS mas, ao mesmo tempo, rejeita que o desenvolvimento e o fortalecimento do país fosse consequência da revolução bolchevique de 1917 e do socialismo. Enquanto Putin continua a trabalhar para limitar a influência comunista no país (as suas agências de inteligência criaram nos últimos anos três partidos «comunistas» para atacar em força o Partido Comunista dirigido Guennadi Ziuganóv), tem muito cuidado para não atacar o frontalmente o socialismo soviético (ao contrário do que acontecia nos anos de Yeltsin), como conhecedor que é das simpatias que o comunismo continua a conservar entre os russos. A revolução bolchevique e o socialismo, a par dos traços negativos que desenvolveu, continuam a ser defendidos pelos trabalhadores: a última sondagem realizada por Levada Center entre a população russa, no final de Janeiro de 1917, revela que a maioria dos cidadãos tem boa opinião de Brejnev e Estaline e, ainda que 22% rejeite a figura do georgiano, apenas 9% têm má opinião do Brejnev, e o apoio ao socialismo é amplamente maioritário, até ao ponto de quererem o regresso da União Soviética. Contraditoriamente, também Putin mantém uma considerável aprovação que, indubitavelmente, é devida ao facto de ele ter acabado com a criminalidade mafiosa nas ruas durante os anos de Yeltsin, e ao seu novo protagonismo que traz peso internacional ao país.

Putin navega entre duas águas: recuperou o hino soviético, o desfile da vitória sobre o nazismo, mantém a bandeira vermelha com a foice e o martelo no exército, enquanto tenta desenvolver uma nova imagem russa, simbolizada na bandeira tricolor, tudo isto sem esquecer que, agora, está previsto dedicar uma rua e erigir um monumento a Fidel Castro; mas também assiste aos ritos da igreja ortodoxa, mantém excelentes relações com o patriarca Kiril, e viu com agrado o município de Moscovo erigir uma estátua ao rival de Napoleão, o czar Alexandre I, muito perto do jardim das muralhas do Kremlin, onde são recordadas as cidades heróicas da resistência contra os nazis durante a Segunda Guerra Mundial; bem como um monumento, também junto ao Kremlin, dedicado ao príncipe Vladimir, como «reunificador das terras russas», gestos, todos eles, dirigidos ao enaltecimento do orgulho nacional. A nova Rússia não pôde recuperar toda a influência que a URSS exerceu no plano internacional e, ainda que desde a intervenção de Putin na Conferência de Munique de 2007 o seu governo tenha levantado a voz para denunciar a expansão norte-americana para as suas fronteiras, não conseguiu evitar o golpe de Estado em Kiev, nem o perigoso foco de guerra de Donbáss nas suas fronteiras, nem a chegada das forças da NATO à Ucrânia: a recuperação da Crimeia é apenas um prémio de consolação, apesar de ter fortalecido o seu prestígio entre os russos. Ao mesmo tempo, Putin está consciente que o potencial militar russo não é comparável ao soviético, mas conserva uma importante parte do seu poder de dissuasão, graças ao arsenal atómico herdado da URSS, que o governo de Médvedev está a renovar.

São diversos os traços que caracterizam as outras antigas repúblicas soviéticas, e vão desde a existência de uma suposta democracia na Estónia, Letónia e Lituânia, que convivem com a marginalização e a falta de respeito pelos direitos cívicos dos russos ali residentes, a complacência para com os nacionalismos sectários, os grupos nostálgicos do nazismo, até às satrapias do Turquemenistão, Uzbequistão e Cazaquistão, já para não falar da extrema-direita que se apoderou do governo da Ucrânia. Por sua vez, momentaneamente os antigos países socialistas europeus estão convertidos em redutos da direita nacionalista e da ultradireita: da Polónia à Hungria passando pela Roménia, Bulgária e, inclusive a República Checa ou a Eslováquia apresentam inquietantes traços xenófobos, de extrema-direita ou mesmo fascistas.

A União Soviética foi uma referência e um incentivo para o movimento operário mundial, e o ataque às conquistas sociais foi possível em muitas regiões do planeta, também pelo desaparecimento da URSS. Ainda que já se tivesse iniciado o ataque sistemático do neoliberalismo contra os direitos dos trabalhadores, a ausência a URSS estimulou a revanche: o incremento da exploração, a redução dos salários, o aumento da idade da reforma, a perda de direitos na saúde, na educação, a precarização do trabalho, o aumento arbitrário dos horários laborais, a perda de pensões foi a mão de um ambicioso projecto de dominação que os Estados Unidos lançaram em muitas regiões do planeta, desde as guerras na Jugoslávia até à criação do Kosovo, as guerras no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria e o golpe-de-estado na Ucrânia, isto para citar apenas os mais graves, tal como o acantonamento de novas tropas da NATO e a deslocação do seu escudo antimísseis, bem como o seu programa de contenção da China, agora considerado o novo inimigo global. Esse projecto de dominação, que Washington iniciou depois do desaparecimento da URSS, viu-se entorpecido por dois fenómenos imprevistos pelos seus centros de investigação e pela sua diplomacia: o impressionante fortalecimento chinês depois da sua entrada na OMC, e o novo papel exercido pela Rússia que, com Putin, deixou para trás a subordinação política dos anos de Yeltsin e Kozirev.

4. Uma parte da esquerda social-democrata ou esquerdista celebrou como uma vitória o desaparecimento da União Soviética, evidenciando uma enorme miopia política e uma falta de perspectiva estratégica, que a catástrofe humana com os milhões de mortos causados pelas reformas capitalistas em todo o antigo bloco socialista europeu, não os fez rever. Tampouco os retrocessos posteriores dos direitos sociais no mundo ocidental os levaram a interrogar-se sobre os efeitos da ausência soviética. A destruição da URSS debilitou os partidos comunistas em todo o mundo, ainda que não deva perder-se de vista que a maior organização política do mundo tem essa ideologia: o Partido Comunista Chinês, e que existem relevantes partidos da mesma tendência em todos os continentes que se proclamam filhos da revolução de Outubro. Ao mesmo tempo, para sua surpresa, danificou os partidos social-democratas, cuja cumplicidade com as políticas neoliberais (da França à Grécia, da Espanha à Itália, da Venezuela à Grã-Bretanha) do último quarto de século os levou a uma crise que pode ser terminal.

5. Nestes vinte e cinco anos transcorridos desde o eclipse da URSS, as propostas e a acção do governo dos defensores do capitalismo basearam-se no aniquilamento do chamado Estado de Bem-Estar, nos despedimentos arbitrários de trabalhadores, na precarização do trabalho, na redução unilateral dos salários, no ataque à instrução pública, na tentativa de eliminação dos sistemas públicos de saúde e de pensões pagas pelo Estado; e a esquerda e os sindicatos foram incapazes (apesar das muito honrosas lutas e resistências) de fazer frente a esse programa de devastação da dignidade humana e da confiança num mundo mais justo.

Os laboratórios ideológicos do neoliberalismo tentaram destruir o orgulho e a consciência operária, marcar a fogo os trabalhadores, toscos e grosseiros habitantes da periferia do sistema; pretenderam enraizar a noção de que as ideias de esquerda, de socialismo, de comunismo são escabrosas recordações de um mundo que morreu, e que a modernidade reside na adaptação servil, no consumo do lixo ideológico escarrado por todos os écrans utilizados pelo sistema capitalista e todos os outros mecanismos de controlo da informação. Essa operação fez mossa na esquerda, que viu como se reduziam os seus militantes, como se apagava a memória histórica do movimento operário, como se declaravam obsoletos o marxismo e a luta de classes, se acusava a esquerda impotente para se actualizar, inclusive se declarava desaparecido o mundo operário de ontem (portanto a necessidade de sindicatos e partidos de esquerda), apesar da evidência de existirem mais trabalhadores fabris no mundo que noutro qualquer momento da história.

Os problemas da esquerda já vêm de longe. Achille Ochetto, o artífice da volta della Bolognina que liquidou o Partido Comunista Italiano, afirmou então, com a ardilosa retórica dos que se atribuem sempre o novo para arrojarem os seus opositores para o inferno das ideias mortas da história, o poço escuro do passado obsoleto: «Não temos de continuar pelos velhos caminhos, mas inventar os novos para unificar as forças do progresso». Na realidade, limitaram-se a mudar para os velhos caminhos da submissão ao capitalismo que desembocaram nesse triste e impotente Partido Democrático. Desde então, na Europa apareceram partidos e movimentos que, de maneira confusa, pretendem articular as energias da esquerda, da oposição: desde o Syriza ao Podemos, desde o Movimento 5 Estrelas ao Die Linke, desde o efémero Partido Anticapitalista Francês aos verdes (ontem antagonistas, e hoje integrados), todas essas forças se movem no campo da moderação e do medo: são filhos da derrota, e revelam-se incapazes de romper o cordão umbilical com o capitalismo e, com excepção do Die Linke, de propor um horizonte socialista.

Uma opção é (nunca esquecendo o imprescindível trabalho político nas fábricas e nas empresas) articular amplos blocos sociais para lutarem nas ruas, nas eleições e nos parlamentos, outra muito diferente é apostar na criação de partidos vagamente de esquerda que renunciem a combater pelo socialismo. Porque a miragem que, novamente, se agita perante o rosto dos trabalhadores e dos excluídos, é a de a de voltar a construir uma esquerda tímida, dócil, que renuncie ao socialismo, resignada perante o poder capitalista. Além disso, essa nova e limitada esquerda revela-se incapaz de atrair os trabalhadores que, num mundo cheio de incertezas, sucumbem com frequência aos populismos demagógicos que articulam o discurso da extrema-direita.

Há uma evidência que se impõe: para o conjunto da humanidade, o capitalismo foi incapaz de resolver os seus problemas, os de acumulação e de expansão depredadora e sem limites que pôs o planeta á beira da catástrofe. No entanto, o rebentar da crise criou miragens para uma assinalável parte da população e dos trabalhadores: legiões de cidadãos esperam que a pior parte das dentadas das crises os não afecte, e reagem politicamente perante o medo de perder tudo, perante as novas migrações causadas pelas guerras coloniais, refugiando-se no ninho de víboras da nova extrema-direita, que lhes oferece um regresso à velha segurança, aos estados nacionais, a ilusórias fortalezas onde resistem à chegada de outros trabalhadores mais pobres e a refugiados das guerras. Além disso, essa extrema-direita lança as suas propostas (de Le Pen a Trump, de Ksczsiski a Orbán, de Petry a Wilders), por vezes envolvidas numa retórica que, sem hipocrisia, chega inclusive a parecer «progressista», e reclamam protecção para as indústrias nacionais, olhando-se no espelho dos anos trinta do século XX, sem verem que aquele programa trouxe duras lutas comerciais, novas aventuras coloniais e, por fim, a guerra. As instituições europeias, com a social-democracia e esses novos e vagos movimentos de esquerda revelam-se impotentes para fazerem frente à extrema-direita, mas face ao perigo do novo fascismo é urgente opor um bloco social, como o que levantaram os partidos comunistas entre as duas guerras em muitos países da Europa.

Não é possível reformar o capitalismo, e as opções que se empenham em passar para caminhos dessa natureza, que recuperam velhos esquemas social-democratas estão no caminho do fracasso. A direita pretende, em todos os países, fazer retroceder os direitos dos trabalhadores, privatizar as propriedades públicas, acabar com a saúde e a educação gratuitas, converter os reformados em reféns das companhias de seguros e entidades financeiras. E isso não se combate com tímidas ideias reformistas.

O drama da esquerda, bem presente na Europa, mas também noutros continentes, é que, apesar de estar consciente da impossibilidade da reforma do capitalismo, fica paralisada para propor vias socialistas, devido à pressão do poder e aos meios de comunicação. A democracia representativa burguesa e o parlamentarismo mostraram os seus limites, e o movimento operário e os novos movimentos sociais devem recuperar a acção nas fábricas e incrementar a presença dos trabalhadores na luta das ruas.

A história não é como a esperávamos, mas recordar a revolução bolchevique não é um exercício de nostalgia do passado, mas um tempo de aposta no futuro, o socialismo e o carácter social que devem ter as forças produtivas devem estar no centro das preocupações da esquerda. O novo horizonte dos filhos da revolução bolchevique deve desenvolver, juntamente com a propriedade pública dos meios de produção, quatro aspectos essenciais: a libertação da mulher, a ampliação da democracia e da liberdade, uma justa distribuição do trabalho e do bem-estar no mundo e a catástrofe ecológica.

A revolução bolchevique de 1917 foi o ponto de partida das novas lutas revolucionárias no mundo, e a sua contribuição para a construção do socialismo não desapareceu, porque o capitalismo não pode resolver os problemas da humanidade, e aqui reside o valor da revolução bolchevique e da visão de Lenine. Essa revolução, mil vezes enterrada, acusada de carências democráticas e libertárias, criadora do país símbolo da vitória contra o nazismo que o fez vítima da matança mais cruel da história; artífice do único país que durante décadas enfrentou solitário o imperialismo ocidental; estímulo de novas revoluções no mundo e sustentáculo da luta anticolonial, continua a fornecer o fermento da revolta, porque, apesar de tudo, o legado bolchevique continua vivo, e a escolha continua a ser entre socialismo ou barbárie.

Notas do Tradutor:
[1] Trata-se da sigla inglesa do Stockolm International Peace Research Institute
[2] Movimento Reformador Lituano, que dirigiu os acontecimentos que levaram à independência da Lituânia, e que mais tarde se transformou em partido político. Dissolveu-se depois de 1993, dando origem a outros partidos reaccionários.
[3] O «giro della Bolignina», considerado o primeiro passo para a passagem do Partido Comunista Italiano (partido revisionista dito eurocomunista) no Partido Democrático, foi apresentado por Achille Ochetto, de surpresa, no 45º aniversário da batalha da Porta Lame em 12 de Novembro de 1989.

* Higino Polo, publicista e historiador é colaborador habitual de El Viejo Topo

Este artigo foi publicado em nº 351 (Abril de 2017) de El Viejo Topo e reproduzido em http://www.lahaine.org/mundo.php/1917-cuatro-notas-en-el

Tradução de José Paulo Gascão

FONTE: ODiario.info

Orígenes y vigencia del pensamiento político de Fidel

Por Fernando Martínez Heredia

Fidel Castro. Foto: Archivo.

Conferencia inaugural en el XXII Encuentro Nacional de Solidaridad con Cuba, del Movimiento Mexicano de Solidaridad con Cuba. Universidad Obrera de México, San Ildefonso no. 72, Ciudad de México, 18 de marzo de 2017.

Agradezco esta oportunidad a las mexicanas y los mexicanos tan abnegados y generosos que realizan y mantienen estos encuentros.

Comienzo mi intervención por el primer indicador de la vigencia de Fidel. El homenaje que recibió, en los nueve días que siguieron a su partida, fue una consigna de hoy, una invención de jóvenes que hizo suya todo el pueblo de Cuba: “yo soy Fidel”. Así se demostró que Fidel es del siglo XXI, y no solo del XX, y también que cuando el pueblo entero se moviliza con conciencia revolucionaria es invencible. En esos días del duelo, Fidel libró su primera batalla póstuma y la ganó; al mismo tiempo, volvió a mostrarles a todos el camino verdadero, como vino haciendo desde 1953.

Entiendo que ha sido muy atinado el tema que me han fijado los organizadores, porque en la compleja y difícil situación que estamos viviendo en nuestro continente los orígenes, los rasgos fundamentales y la vigencia del pensamiento político de Fidel pueden constituir una ayuda inapreciable. Hoy podemos avanzar mejor con esa ayuda de Fidel, pero a condición de emular con sus ideas y sus actos, para sacarles provecho en lo decisivo, que serán nuestras actuaciones. No imitando simplemente a Fidel, que nunca imitó a nadie, sino traduciéndolo a nuestras necesidades, situaciones y acciones.

Fidel brinda un gran caudal de enseñanzas, tanto para el individuo como para las luchas políticas y sociales. Puede aportarnos mucho conocer mejor sus creaciones y sus ideas, las razones que lo condujeron a sus victorias, cómo enfrentó Fidel las dificultades y los reveses, su capacidad de identificar lo esencial de cada situación y los problemas principales, plantear bien la estrategia y la táctica, tomar decisiones y actuar con determinación y firmeza. Si lo hacemos, será más grande su legado.

En el transcurso de la vida de Fidel pueden distinguirse tres aspectos: el joven revolucionario; el líder de la Revolución cubana; y el líder latinoamericano, del Tercer Mundo y mundial. El segundo y el tercer aspecto suceden simultáneamente. Vamos a asomarnos a la extraordinaria riqueza del pensamiento político del joven que se rebelaba contra todo el orden de la dominación, y no contra una parte de él, del combatiente revolucionario, del artífice de la victoria de la insurrección cubana y del despliegue y la defensa del nuevo poder revolucionario, y del conductor supremo de la creación de una nueva sociedad latinoamericana liberada, socialista, internacionalista y antimperialista.

Fidel fue hijo de una tradición que es fundamental dentro de la historia del pensamiento revolucionario cubano: la corriente radical, que ha tenido puntos en común y ha establecido una trayectoria singular. Esos radicales se fueron por encima de las respuestas políticas que parecían posibles frente a los conflictos de su tiempo y su circunstancia, y las propuestas que ellos hicieron eran llamados a violentar la reproducción esperable de la vida social. Enumero solamente a hitos dentro de esa pléyade, como son Carlos Manuel de Céspedes, José Martí, Julio Antonio Mella y Antonio Guiteras.

Si exceptuamos al pensador original y colosal que fue José Martí, las prácticas revolucionarias fueron lo predominante en la historia de las posiciones y propuestas de los radicales entre 1868 y 1959. Pero, en su conjunto, ellos elaboraron un cuerpo de pensamiento que constituye una acumulación cultural de un valor inapreciable, que siempre es necesario rescatar y asumir conscientemente. Fidel partió también de la práctica, pero al mismo tiempo fue presentando y elaborando un pensamiento radical excepcional, que lo fue llevando a ocupar un lugar cimero en toda esta historia cubana, junto a su maestro José Martí.

Para el radicalismo de las revoluciones por la independencia, la república fue al mismo tiempo un gran logro y una gran frustración. La tremenda guerra revolucionaria de 1895 y el sacrificio en masa del pueblo cubano en ella constituían un legado que exigía liberar al país del dominio neocolonialista impuesto por la invasión norteamericana, y liberarlo del dominio de los ricos explotadores del trabajador y los políticos corruptos, tan voraces como sometidos al imperialismo. Mella y Guiteras habían sido las figuras máximas del gran aporte que trajeron las luchas del siglo XX: un socialismo cubano, que no era calco ni copia del socialismo europeo y que se propuso ir al asalto del cielo desde el suelo insular y latinoamericano, desde el mundo que fue colonizado. El joven Fidel Castro, dirigente estudiantil y abogado de reclamos populares, encontró y asumió muy pronto todo aquel legado de su patria y de los combates y las ideas por la libertad, la justicia social y la liberación nacional.

Fidel aprendió a ser, a la vez, patriota y socialista. A alimentarse del magisterio de Martí y a estudiar a Marx y Lenin, para poder plantearse bien la época en que vivía, sus conflictos fundamentales y las vías y métodos de la lucha por la liberación. A mi juicio, esta es una lección invaluable que nos ha brindado a la mayoría de los seres humanos del planeta, que hemos sufrido durante medio milenio la gigantesca empresa criminal de la universalización del capitalismo, genocida, ecocida y destructora sistemática de las vidas, las cualidades y las esperanzas de miles de millones de personas. De cinco siglos de colonialismo, que sigue vivo en sus formas actuales, tanto mediante sus poderosos medios económicos, culturales, de agresiones violentas y rapiña de todo tipo, como convertido en un cáncer dentro del corazón y el cerebro de los colonizados.

Fidel comprendió muy temprano que la lucha tendría que librarse al mismo tiempo contra el conjunto de las dominaciones, contra lo viejo, lo moderno y lo reciente. Pero, ¿cómo llevar esa comprensión a la práctica y volverla capaz de atraer a la mayoría oprimida, cómo crear instrumentos capaces de organizar y concientizar, de crecer en fuerzas reales y de ir ganando preeminencia, de obtener la victoria? Porque mientras no caen en crisis, los que dominan basan el ejercicio cotidiano de su poder en la hegemonía que tienen sobre la sociedad, en su capacidad de imponer su cultura, obtener consensos, engañar, ilusionar y dividir a la mayoría dominada.

El joven Fidel participó en el movimiento político cubano que fue más lejos en los intentos de utilizar la acción ciudadana, el democratismo y el sistema electoral y representativo avanzado que existía durante la segunda república, para lograr cambios realmente positivos para el país. El líder de masas Eduardo Chibás y el Partido del Pueblo Cubano (Ortodoxos) concitaron el entusiasmo y la esperanza de la mayoría del pueblo, y el miedo a su triunfo fue una causa del golpe militar del 10 de marzo de 1952. La burguesía y el imperialismo demostraban que las reglas del juego de su sistema son las de un juego sucio, y que cuando es necesario son sacrificadas al valor supremo del sistema, que es mantener su poder.

Y precisamente una de las convicciones principales del joven estudioso y activista político, desde algunos años antes de 1952, era que tomar el poder resultaba un requisito indispensable para cambiar a Cuba. La nueva situación, en la que todo parecía estar mucho más lejos y había un bajo nivel de protestas, fue sin embargo entendida por Fidel como una coyuntura en la que las formas radicales de lucha podían ser viables, porque el sistema político en el que se basaba la hegemonía había sido totalmente deslegitimado. Fidel no descuidó referirse a la evidencia de que el régimen violaba la legalidad y no admitía recursos en su contra, pero se dedicó por entero a la vertebración y preparación para pelear de un movimiento clandestino, con gente sencilla del pueblo que tuviera ideales y decisión personal, y asumiera la férrea disciplina y las ideas revolucionarias como suelo común. Ninguno de sus miembros era una personalidad conocida, y muchos pertenecían a los sectores más humildes de la sociedad.

El asalto al Moncada tomó por sorpresa al país. La audacia, la valentía y el sacrificio de los participantes les granjeó la admiración popular, pero ninguna fuerza política los apoyó. Fidel lanzó La historia me absolverá, manifiesto deslumbrante que contenía hasta medidas de gobierno, pero él y sus compañeros quedaron prácticamente solos. La segunda lección que nos aportó fue el hecho mismo del Moncada, rebelión contra las oligarquías y contra los dogmas revolucionarios, como lo definió el Che, el motor pequeño que debería poner en movimiento al motor grande. La tercera lección fue asumir la etapa de prisión como el lugar de la firmeza inquebrantable, y proponerle al país una gran revolución, aunque su realización pareciera tan lejana.

Al salir de cárcel fundó y dirigió el Movimiento 26 de Julio, de honda raíz martiana: los fines públicos, los medios secretos; la convocatoria a todo el pueblo sin exclusiones, pero en una organización férreamente unida en sus ideales, su estructura y su disciplina, decidida y con vocación de poder. Y el carácter radical de la revolución, ajeno a las discusiones bizantinas acerca de los sujetos históricos abstractos: de los humildes, por los humildes y para los humildes.

Al desatar la guerra revolucionaria en diciembre de 1956, Fidel abrió la brecha para que lo imposible dejara de serlo y el pueblo se levantara, y le brindó un lugar donde pelear a todo el que quisiera convertir sus ideales en actuación. En la cárcel había sido un visionario, ahora comenzaba a ser el líder del pueblo que iba pasando de la simpatía al compromiso y a la participación en la insurrección. Aunque sus fuerzas eran pequeñas todavía, ya era uno de los dos polos de la contradicción principal de un país que a través de prácticas tremendas comenzaba a adquirir una conciencia política revolucionaria.

En El Coco, Sierra Maestra, Fidel Castro y Juan Almeida Bosque, en octubre de 1957. Fuente: Libro “La Victoria Estratégica”/ Sitio Fidel Soldado de las Ideas.


Todo era sumamente difícil, y cada paso lo fue. Crear el órgano político militar capaz de combatir, crecer y llegar a vencer, y fundar y desarrollar la escuela de la guerra revolucionaria que debía producir individuos nuevos, compañerismo a toda prueba, cuadros capaces para esa etapa y para las que vendrían después de la victoria. Concebir y poner en práctica la estrategia y las tácticas acertadas, cuidar los métodos para mantener limpios los fines, no hacer concesiones que comprometieran la naturaleza de la revolución e ir consumando su liderazgo. Sumar cada vez más fuerzas del pueblo, y generalizar la convicción y la decisión de que no bastaría derrocar la dictadura, que la causa y la lucha eran para transformar a fondo la patria, y hacer realidad aquella consigna de “independencia económica, libertad política y justicia social”.

Y en todos esos terrenos y en todas las tareas que conllevaban Fidel fue el maestro, el jefe, el ser humano superior y el que veía más lejos. El 6 de junio de 1958, cuando la gran ofensiva enemiga cernía un riesgo de muerte sobre el bastión de la Sierra Maestra, le escribió a Celia Sánchez que luchar contra el imperialismo norteamericano iba a convertirse en su destino verdadero. Ahora que ya era muy difícil considerarlo un iluso, Fidel avizoraba un enfrentamiento que no parecía inminente, pero que él sabía ineluctable. Pero ahora vislumbraba el futuro con un arma en la mano y una revolución en marcha.

El segundo hecho decisivo fue consecuente con el primero, pero muy diferente a él. La resistencia y la guerra popular ganaron fuerza suficiente, derrotaron y desmoralizaron al enemigo y desembocaron en una victoria completa. En enero de 1959 la Revolución venció a la dictadura y, al mismo tiempo, destruyó los aparatos militar, represivo y político del Estado burgués.

Se hizo realidad aquella frase suya de 1955 sobre la única opción cubana: la tiranía descabezada. Pero en medio de la inmensa alegría, Fidel no se confundió. El día 8 lo dijo, al llegar a La Habana: lo más difícil comienza ahora. Porque el proceso cubano podía transcurrir, como otros, con la restauración de instituciones civiles, estado de derecho y modos democráticos, pero en un progresivo desmontaje de las fuerzas y las iniciativas de la revolución, y de la movilización y la conciencia populares. Y corromperse, dividirse y retroceder, cada vez más parecido al funcionamiento “normal” de los sistemas de dominación, hasta ser uno más entre ellos, en el mejor de los casos con una dominación modernizada.

Entonces sobrevinieron un alud de acontecimientos y un proceso vertiginoso que transformaron muy profundamente a Cuba y a los cubanos, desarmaron, vencieron y les quitaron a sus enemigos toda esperanza de recuperación, y concitaron el entusiasmo y la admiración en nuestra América y en el mundo. Fidel completó durante esta etapa su estatura de líder, fue el principal protagonista de la generación y conducción de los hechos y fue el mayor productor de las nuevas ideas revolucionarias que hasta hacía muy poco habían sido impensables.

Este es el lugar de un aporte supremo en el arte más difícil, el de la revolución verdadera. En Cuba se logró unir en una sola revolución al socialismo y la liberación nacional. Contra el capitalismo industrial europeo y su criminal expansión mundial mediante su colonialismo y su mercado, Carlos Marx y sus seguidores consecuentes desarrollaron una propuesta radical de transformación humana y social, el socialismo, y un nuevo pensamiento, el marxismo. Esta teoría social es la más capaz de proveer la comprensión de todo el capitalismo y brindar ideas acerca de la revolución contra todas las dominaciones, un alcance totalizador que se ha convertido en el requisito obligado para los que pretendan crear sociedades nuevas, liberadas. Pero en el mundo que fue colonizado había que asumir el marxismo en sus cualidades y su propuesta creadora, como un instrumento, no como un dogma, y sin actitudes de colonizado de izquierda, para enfrentar la extrema diversidad de situaciones y de culturas. La historia real de las asunciones del marxismo en el mundo que fue colonizado está llena de dificultades y desencuentros entre la cuestión social y la cuestión nacional, que más de una vez han llegado a ser trágicos.

Para vencer frente al nuevo reto, la revolución cubana fue socialista de liberación nacional. La victoria de la insurrección fue convertida en liberación nacional y social por la unión de una vanguardia que supo utilizar de manera óptima el poder revolucionario y darse cuenta de que la opción más radical era la única viable, y de un pueblo que multiplicó una y otra vez sus acciones y su conciencia, y se volvió capaz de transformarse a sí mismo y a la sociedad. La Cuba revolucionaria logró, por primera vez en este continente, fundir en una sola entidad los más altos valores de la lucha patriótica con los más altos valores de las luchas de clases, un logro trascendental de las ideas revolucionarias conseguido en la práctica de un gigantesco laboratorio social. La trascendencia de esa victoria se apreció enseguida a lo largo de América Latina, y hoy sigue vigente en la cultura de liberación latinoamericana.

La Revolución cubana provocó un avance extraordinario del pensamiento de izquierda, porque lo puso ante la opción de luchar por los ideales de cambio total de la vida y no solo por reformas, de confiar en las capacidades del pueblo y no en los intereses de determinados sectores de las clases dominantes. Probó que tenía razón y que su conducta era factible mediante sus prácticas, pero también supo exponer sus nuevas ideas y recuperó otras de la mejor tradición revolucionaria. Fidel y el Che pusieron el socialismo y el marxismo en español desde la América Latina, y lo hicieron decididamente antimperialista e internacionalista. Rescataron y asumieron la profunda propuesta revolucionaria de José Martí, crítico radical de todos los colonialismos al mismo tiempo que de la modernidad civilizadora, y promotor de una república nueva y una segunda independencia continental. Y rescataron y asumieron el socialismo cubano, que habían fundado Mella, Guiteras y las experiencias radicales de la Revolución del 30. La nueva época revolucionaria convirtió en un hecho natural que los problemas sociales principales fueran los problemas fundamentales para el pensamiento.

Fidel, un hombre muy culto y un gran lector del pensamiento europeo, se transformó entonces en un educador popular, que supo utilizar la más reciente tecnología como instrumento. Incansable, fue el primer dirigente político en el mundo que usó la televisión para llevar a cabo una campaña colosal de concientización revolucionaria de un pueblo entero. Se comenta con sonrisas la extensión de sus discursos, pero es que se trataba de la comunicación del conductor con la masa más humilde de la nación y con los que habían considerado que la política era oficio de demagogos y delincuentes. Fidel es el jefe máximo, pero conversa con todos y su comunicación es horizontal. Por eso se le escucha siempre con emoción, no solo con la razón, y nadie lo llama por sus cargos, sino solamente por su nombre de pila, Fidel. Es demasiado grande para necesitar títulos.

Fidel Castro en la Mesa Redonda. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate


El Che ha descrito con acierto singular al maestro Fidel en un párrafo de El socialismo y el hombre en Cuba que invito a leer, en el que dice que su “particular modo de integración con el pueblo solo puede apreciarse viéndolo actuar”.

En menos de dos años, la vanguardia se fue multiplicando y la mayoría del pueblo abrazó la Revolución, y la explotación del trabajo ajeno, las humillaciones, las discriminaciones y los desprecios dejaron de ser hechos naturales para convertirse en crímenes. Fidel fue el principal protagonista de la gran revolución socialista, que cambió las vidas, las relaciones sociales, los sueños de la gente y de las familias, las comunidades y la nación. Para lograrlo se convirtió, como para todo lo importante, en el conductor, el líder amado, la pieza maestra del tablero intrincado de la unidad de los revolucionarios y del pueblo.

En aquel tiempo la actuación tuvo que consistir, para todos y al mismo tiempo, en estudio, trabajo y fusil. Ahora los individuos de vanguardia se elegían en asambleas y el trabajo realizado era el mayor timbre de honor. En las grandes jornadas nos unimos todos. Fidel fue –como cantara el poeta—la mira del fusil, y el pueblo todo –como dijera el Che—se volvió un Maceo. La nueva y mayor victoria de Fidel fue que el pueblo entero se cambiara a sí mismo y se armara con nuevas cualidades, valores y capacidades, y la conciencia social confundiera sin temor los nombres de comunista y fidelista. A la sombra de aquel árbol tan frondoso, las conquistas se convirtieron en leyes, y las leyes en costumbres. Y a diferencia de los vehículos corrientes, el carro de la Revolución no tiene marcha atrás. Fidel dijo de manera tajante, hace más de veinte años, que en Cuba no volverá a mandar nunca una nueva clase de ricos.

El antimperialismo ha sido uno de los rasgos principales de la Revolución cubana, desde el designio que le expresara José Martí a Manuel Mercado en mayo de 1895, porque Estados Unidos ha sido siempre enemigo de la existencia de Cuba como país soberano y libre. Los revolucionarios radicales del siglo XX fueron antimperialistas, y Fidel heredó la comprensión de ese requisito básico de todo proyecto de liberación verdadera del país y de imperio de la justicia social. No emplearé tiempo en referirme aquí a la sistemática, ilegal, inmoral y criminal política de agresión permanente contra Cuba que mantiene Estados Unidos desde 1959 hasta hoy, que incluye una supuesta ofensiva de paz desde hace poco más de dos años. El antimperialismo es una constante permanente de la política revolucionaria cubana.

De Fidel hay que decir que durante toda la vida combatió al imperialismo norteamericano, y supo vencerlo, mantenerlo a raya, obligarlo a reconocer el poder y la grandeza moral de la patria cubana. Pero, sobre todo, enseñó a todos los cubanos a ser antimperialistas, a saber que esa es una condición necesaria para ser cubano, que contra el imperialismo la orden de combatir siempre está dada, que como dijo un día el Che –su compañero del alma—, al imperialismo no se le puede conceder ni un tantito así. La soberanía nacional es intangible, nos enseñó Fidel, y no se negocia.

El legado de Fidel es muy valioso para combatir confusiones y debilidades que resultarían suicidas, y para denunciar complicidades. Nos ayuda a comprender que Estados Unidos hace víctima a este continente tanto de su poderío como de sus debilidades, como una sobredeterminación en contra de la autonomía de los Estados, el crecimiento sano de las economías nacionales y los intentos de liberación de los pueblos. La explotación y el dominio sobre América Latina es un aspecto necesario de su sistema imperialista, y siempre actúa para impedir que esa situación cambie. Por tanto, es imprescindible que el antimperialismo forme parte inalienable de todas las políticas del campo popular y de todos los procesos sociales de cambio.

Desde 1959 en adelante, Fidel fue el mayor impulsor y dirigente del internacionalismo, ese brusco y hermoso crecimiento de las cualidades humanas que le brinda más a quien lo presta que a quien lo recibe. Cuba ha aportado apoyo solidario sin exigencias. Combatientes, médicos, maestros, técnicos, el ejemplo impar de quienes jamás dieron lo que les sobraba, un paradigma revolucionario, con Fidel siempre al frente, audaz y fraterno.

Fidel amplió y desarrolló en muy alto grado el contenido y el alcance de las prácticas y las ideas revolucionarias mundiales mediante el internacionalismo cubano. Sería una iniciativa fecunda recoger y publicar una amplia selección de sus criterios y consideraciones acerca de este tema, cuya importancia es estratégica en la coyuntura mundial que estamos viviendo.

El internacionalismo es, además, la antítesis del bloqueo. Sometiendo a Cuba a esa prueba terrible solamente lograron hacerla más unida y más fuerte en su decisión, más socialista a su sociedad y a su poder revolucionario, más humana a su gente en la capacidad de ser solidaria y volverse un haz de trabajo, voluntad y amor compartidos, más consciente políticamente frente a todas las circunstancias, hechos, desafíos y necesidades, y también frente a las maniobras más hábiles de nuestros enemigos. La conciencia desarrollada es el escudo y el arma de un pueblo culto, y permite a las personas ser muy superiores a lo que parece posible.

El internacionalismo practicado durante más de medio siglo por cientos de miles de cubanas y cubanos, sostenidos por el amor y la admiración de sus familias y sus paisanos, ha sido y sigue siendo una rotunda victoria sobre el bloqueo. Creyeron que podían acorralarnos y aislarnos, rumiando miserias, y Cuba se ha multiplicado entre los pueblos del planeta, ha sabido darse al acudir a colaborar y a hermanarse con tantos pueblos que no conocíamos, contribuyendo así al desarrollo de una cultura muy superior y ajena a la del egoísmo y el afán de lucro capitalistas. Al mismo tiempo, el internacionalismo nos ha dado mucho más que lo que hemos aportado, en términos de desarrollo humano y social.

Fotografía del 19 de mayo de 1998 que muestra al presidente cubano, Fidel Castro, junto al presidente sudafricano, Nelson Mandela, durante una ceremonia celebrada con motivo del 50 aniversario del Acuerdo General sobre Aranceles Aduaneros y Comercio (GATT, por sus siglas en inglés) durante una conferencia ministerial de la Organización Mundial del Comercio (OMC) celebrada en Ginebra (Suiza). PATRICK AVIOLAT EFE


No debo extenderme mucho más, para no quitarle tiempo al intercambio, que siempre es tan valioso. Permítanme comentar, o enumerar al menos, otros aspectos de sus ideas y su trayectoria que me parecen muy importantes a la hora de referirnos a su legado.

1-Partir de lo imposible y de lo impensable, para convertirlos en posibilidades mediante la práctica consciente y organizada y el pensamiento crítico, conducir esas posibilidades actuantes hacia la victoria, a la vez que se forman y educan factores humanos y sociales suficientes para poder enfrentar situaciones futuras. Mediante las luchas, los triunfos y las consolidaciones, convertir las posibilidades en nuevas realidades.

2- No aceptar jamás la derrota. Fidel nunca se quedó conviviendo con la derrota, sino que peleó sin cesar contra ella. Me detengo en cinco casos importantes en su vida en que esto sucedió: 1953, 1956, 1970, el proceso de rectificación y la batalla de ideas. En 1953, respondió a la derrota del Moncada con un análisis acertado de la situación para guiar la acción y un apego a los fines mediatos para mantener la moral de combate. Cuando todos creían que era un iluso, se reveló como un verdadero visionario. En 1956, frente al desastre del Granma, respondió con una formidable determinación personal y una fe inextinguible en mantener siempre la lucha elegida, porque él sabía que era la vía acertada.

En 1970, comprobó que lograr el despegue económico del país era extremadamente difícil y tardaría mucho más de lo pensado, pero entonces apeló a los protagonistas, mediante una consigna revolucionaria: “el poder del pueblo, ese sí es poder”. En1985, fue prácticamente el primero que se dio cuenta de lo que iba a suceder en la URSS, que le traería a Cuba un gran desastre económico y una agravación del peligro de ser víctima del imperialismo, pero su respuesta fue ratificar que el socialismo es la única solución para los pueblos, la única vía eficaz y la única bandera popular, que lo necesario es asumirlo bien y profundizarlo. Entonces movilizó al pueblo y acendró su conciencia, y sostuvo firmemente el poder revolucionario. En el 2000, ante la ofensiva mundial capitalista y los retrocesos internos de la Revolución cubana en su lucha para sobrevivir, lanzó y protagonizó la batalla de ideas, con sus acciones en defensa de la justicia social, su movilización popular permanente y su exaltación del papel de la conciencia.

3- La determinación de mantener la lucha en todas las situaciones, cualesquiera que fuesen. Al estudiar a los revolucionarios, a aquellos que se lanzan a pelear por transformaciones sociales profundas, sería muy conveniente considerar como concepto a la determinación personal.

4- Organizar. Esa fue una constante, una verdadera fiebre de Fidel. Ojalá que ese aspecto primordial dentro de su legado no sea descuidado, y sea comprendida su importancia vital.

5- La comunicación siempre, con cada ser humano y con las masas, en lo cotidiano y en lo trascendente. Esta es una de las dimensiones fundamentales de la grandeza de Fidel, y es uno de los rasgos básicos del liderazgo.

6- Utilizar tácticas muy creativas y estrategias impensables, que eran, sin embargo, factibles.

7- Luchar por el poder y conquistarlo. Mantener, defender y expandir el poder, que es un instrumento fundamental para los cambios humanos y sociales. En términos abstractos se puede discutir casi eternamente acerca del poder, pero solo las prácticas revolucionarias logran convertir al poder en problemas que puedan plantearse bien, y resolverse.

8- Crear los instrumentos revolucionarios y formar a los protagonistas. Tomar las instituciones para ponerlas a nuestro servicio, no para ponernos nosotros al servicio de ellas.

9- Ser más decidido, más consciente y organizado, y más agresivo, que los enemigos.

10- Enseñar y aprender al mismo tiempo, con los compañeros y con la gente del pueblo con la que se comparte, y en cuanto sea posible, con todo el pueblo. Recuerdo que el Che tituló “Lo que aprendimos y lo que enseñamos” a un texto breve que escribió un mes antes del triunfo, para la prensa revolucionaria. Es una pieza de análisis profundo y previsor, testimonio de la gran escuela que estaban pasando.

11- Ser siempre un educador. Fidel considera que la educación es un elemento fundamental para que el ser humano se levante por encima de sus necesidades y sus propensiones más inmediatas, y se vuelva capaz de actuar con propósitos cada vez más elevados y de albergar motivaciones y valores correspondientes a ellos. Solo de ese modo crecerán los seres humanos y la sociedad socialista, violentando la escasez material y la multitud de obstáculos de todo tipo que se levantan contra ella, y se crearán cada vez más fuerzas y capacidades que desarrollen la nueva sociedad.

En la medida en que el pueblo se levante espiritualmente y moralmente, será participante consciente del proceso liberador y será capaz de todo, complejizará sus ideas y sus sentimientos y enriquecerá su vida.

12- Que la concientización y la movilización estén en el centro del trabajo político, no solo para que se cumplan los fines de este, sino para que la política llegue a convertirse en una propiedad de todos.

13- Avanzar hacia formas de poder popular. En un buen número de aspectos de la gran aventura de la creación de la nueva sociedad y la participación en la revolución mundial de los oprimidos, Fidel vivió los afanes y las vicisitudes de los límites que les ponen a la actuación las limitaciones del medio, los obstáculos y los enemigos. La transición efectiva del capitalismo al comunismo, había escrito el joven Marx, no será tan fácil como ganar una discusión conceptual, tendrá que suceder en una etapa histórica a la que el gran pensador alemán calificó de prolongada y angustiosa. Fidel fue el mayor promotor y el abanderado del desarrollo de un sistema de poder popular que gobernara en grado creciente la transición socialista. Desde los inicios de la Revolución estuvo creando y defendiendo experiencias prácticas e instituciones, y exponiendo ideas en ese terreno que constituyen una herencia inapreciable.

Ese legado también resulta muy necesario hoy, cuando el capitalismo enarbola su democracia desprestigiada, corrupta y controlada directamente por oligarquías, y les exige a los gobernantes tímidos y a los opositores respetuosos que se atengan a sus reglas como a artículos de fe, una actitud que sería suicida, porque esas reglas están hechas para conservar el sistema de dominación capitalista.

Sería interminable la exposición de la inmensa riqueza del pensamiento político de Fidel. Señalo solo como ilustración su planteamiento en 1969 de que, a diferencia de lo que estimaba el marxismo originario, que el socialismo sería consecuencia del desarrollo del modo de producción que llamamos desarrollado, en la gran mayoría del planeta que fue colonizada el desarrollo tendrá que ser consecuencia de la existencia de poderes socialistas.

Pero debo detenerme. Hay que aprovechar la cantidad enorme de maravillosas historias humanas de Fidel, ese es un regalo invaluable. Pero no podemos quedarnos ahí: hay que rescatar a Fidel completo, todo su caudal inagotable de cultura política y de línea política revolucionaria práctica, de maestría en la conducción, de cuidar siempre al pueblo por sobre todas las cosas, de mantener firmemente el poder en todas las situaciones y crear y cuidar los instrumentos del poder, combinar la ética y la política, entender la educación como palanca eficaz para lograr tanto las transformaciones que hacen crecer y ser mejor al ser humano como las que permiten crear el socialismo, defender la soberanía nacional y practicar el internacionalismo. Y muchos aspectos más.

Quisiera, sin embargo, reclamar que no nos quedemos solamente con el legado de su pensamiento, ni con la impresionante suma de su actuación pública. No olvidemos nunca al ser humano altruista que no aceptó gozar de triunfos personales y lo compartió todo con su pueblo y con los pueblos, al individuo preocupado por cada persona con la que hablaba o le planteaba un problema, por los compañeros que colaboraban directamente con él, sin guiarse por los cargos ni los niveles de cada uno. Lo que se publicó en diciembre pasado acerca de este ser humano Fidel es solo la punta del iceberg de su personalidad.

Mil facetas podrían ser evocadas. El austero, ajeno a la ostentación y el oropel, el comandante de abrumadora sencillez para todos los que le conocieron. El individuo infatigable, ejemplo con su actuación que sin palabras de reproche estimulaba a los que se cansaban. El cautivador, presto a gastar su tiempo en cada tarea de enseñar, mostrar o convencer. El dirigente que sabía escuchar, que no temía oír, y era un temible preguntador. El que recordaba los nombres de la gente común, y les preguntaba por sus familiares. El que era siempre el centro, donde quiera que se presentaba, y nunca era el autócrata ante el que hay que bajar la cabeza y obedecer.

Baste añadir que la vida de Fidel es imposible de encuadrar. Y que su última voluntad, retorno después de una vida en el proscenio al magisterio de José Martí, el que dijo que todas las glorias del mundo caben en un grano de maíz, es una lección para que aprendamos a identificar bien la verdadera grandeza.

FUENTE: Cubadebate

sábado, 20 de maio de 2017

O nascimento da solidão

[A propósito dos 50 anos da publicação do livro CEM ANOS DE SOLIDÃO, de Gabriel García Márquez]

Por Eric Nepomuceno

Há 50 anos, e a estas alturas de maio, a expectativa era palpável na casa de número 19 da rua Loma, em San Angel Inn, um bairro de classe média da Cidade do México. Faltava pouco para que Gabriel García Márquez e sua guardiã eterna, Mercedes, viajassem para Buenos Aires, para o lançamento do livro que era a aposta da sua vida, "Cem Anos de Solidão".

Em um tempo em que não havia internet e nenhum dos mecanismos de comunicação que hoje qualquer criança usa, em que os telefonemas internacionais tinham um custo exorbitante, uma carta recebida dias antes contava que a primeira edição do livro, pela prestigiada e prestigiosa Editorial Sudamericana, seria de 8 mil exemplares.

Nenhum livro de García Márquez havia vendido mais do que mil e poucos exemplares. Ele sabia que daquela vez seria diferente, mas 8 mil era demais, era assustador. Escreveu para a editora dizendo ter medo de provocar um encalhe de proporções amazônicas.

Outra carta urgente do lendário editor Paco Porrúa tentou acalmá-lo. Dizia que a expectativa da editora era vender aquela edição "até o fim do ano". Foi um garrafal erro de projeção: a edição esgotou-se em 15 dias. Veio uma segunda, de 10 mil exemplares, que teve o mesmo destino. Começaram a chegar pedidos de todos os lados: o México pedia 20 mil exemplares, a Colômbia queria mais 10 mil. A editora teve de suspender a impressão de todos os outros livros e comprar cotas extras de papel.

Em três anos foram 600 mil exemplares em castelhano, e em oito, as vendas chegaram a 2 milhões.

Em 1982, quando García Márquez ganhou o Nobel de Literatura, só em castelhano "Cem Anos de Solidão" tinha vendido 25 milhões de exemplares. Quando ele fez 80 anos de vida, em março de 2007, tinha vendido 50 milhões de exemplares em 36 idiomas, e não parou de vender até hoje. Os leitores de "Cem Anos de Solidão"poderiam formar um dos 20 países mais povoados do mundo.

Durante esse tempo, muito se especulou sobre o momento exato em que García Márquez escreveu a primeira frase do livro, uma das aberturas mais singulares da literatura: "Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo".

Ele dizia, rindo, que quando escreveu o que escreveu, seu primeiro pensamento foi: "E agora, o que virá?".

Bem, o que veio foi um manancial único, que mudou de vez não só a vida pessoal do autor, mas marcou para sempre a literatura contemporânea.

Quando escreveu essa frase, García Márquez tinha 37 anos de idade. Havia chegado à Cidade do México quatro anos antes - no entardecer do domingo, 2 de julho de 1961. Chegou, com Mercedes e o filho Rodrigo, de Nova York, onde tinha sido correspondente da agência cubana de notícias Prensa Latina. Viajou de ônibus, atravessando os Estados Unidos e prestando especial atenção às paisagens do Sul, o mundo misterioso e dramático de um de seus mestres, William Faulkner. Levava pouco mais de US$ 200 no bolso, a determinação de se transformar em roteirista de cinema e a vontade de se estabelecer como escritor.

Tinha escrito quatro livros e apenas um, "O Enterro do Diabo", fora publicado, sem outras glórias que
algumas resenhas elogiosas, seis anos antes, na Colômbia. Era um escritor quase clandestino.

Entre 1961 e aquela tarde remota de 1965 fez de tudo um pouco para viver. Voltou ao jornalismo, tentou a publicidade, trabalhou como roteirista de cinema, enfim, tudo menos literatura.

A única novidade importante aconteceu em 1962, quando ganhou na Colômbia o prêmio Esso de Literatura, com "O Veneno da Madrugada". Com os US$ 3 mil do prêmio comprou um Opel branco, pagou o parto de seu segundo filho, Gonzalo, comprou camisas e pijamas de presente para seu compatriota e amigo Álvaro Mutis e mudou de casa.

Em setembro de 1963 ele foi parar na J. Walter Thompson, multinacional de publicidade. Uma vez mais, a estrela protetora de Mutis foi providencial. E, uma vez mais, García Márquez viu-se às voltas com um trabalho cuja função era assegurar o sustento da família. Continuava sem escrever literatura. Meses depois, foi trabalhar como roteirista, e sua primeira tarefa não poderia ser mais empolgante: tratava-se de escrever o roteiro de um argumento original de Juan Rulfo, "O Galo de Ouro".

Rulfo era o escritor vivo mais admirado por García Márquez. As leituras de seus dois únicos livros, o de contos, "O Chão em Chamas", e o romance "Pedro Páramo", tinham provocado nele um impacto de terremoto. Repetiria, ao longo da vida, que só outros dois autores haviam sacudido tanto seus alicerces: Kafka e Sófocles.

Nada melhor, portanto, que entrar no tão ansiado ofício do cinema com a missão de trabalhar com um
argumento de seu autor reverenciado. Terminada a tarefa, o produtor fez apenas um reparo: os diálogos estavam "em colombiano, e não em mexicano". Foi convocado, então, um jovem autor que García Márquez conhecia por carta e através de amigos em comum, Carlos Fuentes.

Tornaram-se amigos para sempre. O trabalho, porém, foi uma formidável sequência de frustrações. A tal ponto, que no primeiro semestre de 1965 ele disse a Fuentes que iria voltar para a Colômbia. Ouviu do amigo que aquele trabalho servia basicamente para financiar os livros que queriam escrever. Que fosse para casa escrever.

Na verdade, se fizesse um balanço de sua temporada mexicana, ele deveria se dar por satisfeito. Tinha se tornado um roteirista bem cotado, um escritor reconhecido, e editoras de vários países latino-americanos começavam, pouco a pouco, a se interessar pelos seus livros.

Mas não estava feliz. Nos últimos anos não havia escrito um só conto, não havia começado nenhum romance.

Álvaro Mutis, seu amigo mais próximo, o que melhor o conhecia, achava que na verdade ele havia sofrido três impactos: o da complexidade mexicana, o da obra de Juan Rulfo e o do sonho e da frustração com o cinema.

Foi quando aconteceu a história, tantas vezes repetida, de uma viagem de fim de semana com a família até Acapulco. Mal tinham saído da Cidade do México quando, de repente, ele manobrou bruscamente o Opel branco e voltou. É que, num relâmpago, um livro inteiro, o tão esperado, apareceu. No dia seguinte, começou a escrever "Cem Anos de Solidão".

Na verdade, as coisas não ocorreram exatamente assim. Ele teve, sim, o relâmpago do livro enquanto
dirigia. Mas passou o fim de semana em Acapulco, e só na manhã daquela incerta terça-feira, já de regresso à Cidade do México, sentou-se para começar a escrever.

Durante semanas García Márquez oscilou entre a necessidade de mergulhar no livro e a obrigação de
cumprir tarefas que, de repente, se tornaram insuportáveis. Até que decidiu se isolar do mundo.

Entre suas economias e a ajuda do permanente Álvaro Mutis, reuniu US$ 5 mil. Colocou o dinheiro nas mãos de Mercedes, que deveria se encarregar de tudo. Ele não voltaria à vida cotidiana durante os seis meses em que planejava escrever o livro. Refugiou-se num canto da sala de jantar, separado do resto da casa por uma divisória de madeira. Na porta, colocou uma tabuleta de humor caribenho: "La Cueva de la Máfia". Lá dentro havia uma estante com alguns livros, vários dicionários, um globo terrestre, a mesa de madeira com a Olivetti portátil, dois quadros de gosto mais do que duvidoso e, sempre, ao alcance da mão, uma pilha de 500 folhas de papel ofício.

García Márquez sentia uma espécie de rancor em relação ao livro: "Ele quase destroçou a minha vida. Depois de publicado, nada foi como antes".

A primeira versão de "Cem Anos de Solidão" tinha o equivalente a pouco mais de duas daquelas pilhas, ou seja, pouco mais de mil páginas datilografadas de forma impecável - e depois cobertas de rabiscos, correções, dúvidas, alterações, num bordado quase indecifrável para o próprio autor. Após semanas de cortes e recortes, o livro ficou menor: 590 páginas datilografadas em espaço duplo.

Entretanto, os tais seis meses viraram 14. No meio do caminho o dinheiro acabou, o Opel foi primeiro penhorado e depois vendido, e penhoradas foram as joias de Mercedes e depois a televisão, o rádio e tudo que fosse penhorável. Quando finalmente o livro acabou eles deviam nove meses de aluguel, quatro meses de açougue e não tinham mais quase nada para empenhar ou vender.

Na hora de despachar, pelo correio, os originais para Buenos Aires, o funcionário pesou o pacote, e disse: "São 82 pesos". Mercedes contou o dinheiro e disse ao marido: "Só temos 53". Os dois dividiram o pacote pela metade, despacharam uma parte e pronto.

Quando enfim conseguiram empenhar o secador de cabelos de Mercedes, o aquecedor elétrico e uma
batedeira de bolo, mandaram o que faltava. E só então perceberam que no primeiro pacote despachado estava, na realidade, a segunda parte do livro: o editor recebeu primeiro o final.

Pouco depois, o mesmo correio trouxe o cheque de adiantamento sobre direitos autorais do livro: US$ 500. Com esse dinheiro o aluguel de quase um ano foi pago.

A partir daquele 20 de junho de 1967 , quando "Cem Anos de Solidão" chegou às livrarias de Buenos Aires, cada hora de cada dia foi dedicada, arduamente, a um esforço imenso para que ele pudesse continuar sendo o Gabriel García Márquez que tinha sido até então.

Sabia que seria impossível. Alguns dos amigos de antes ficaram pelo caminho, mas os que se mantiveram continuaram intocados e intocáveis. "Compartilhamos nostalgias", dizia ele para justificar o elo que os unia. Algumas poucas vezes participei daquelas reuniões, que eram emocionantes. Ali, o livro não tinha feito estrago algum.

Mas a fama, a pressão, tudo se fez insuportável. Defender a cidadela da privacidade se tornou uma tarefa esgotadora e, muitas vezes, vã.

No começo de 2003, Mercedes fez para mim uma conta que dá bem a dimensão do grau de solicitação e de assédio a que García Márquez era submetido: ao longo de um ano, foram 115 convites para eventos que iam de feiras de livros a conferências e homenagens, 150 pedidos de entrevistas, 28 propostas para entrevistas filmadas - por semana.

E isso apenas na casa deles, na Cidade do México, sem contar o que aterrissava no escritório de sua agente literária, Carmen Balcells, em Barcelona.

Qual era a relação dele com "Cem Anos de Solidão"? Não exatamente boa. Certa vez, disse que sentia uma espécie de rancor: "Ele quase destroçou a minha vida. Depois de publicado, nada foi como antes". E esclareceu: a fama perturba o sentido da realidade, talvez quase tanto como o poder, e além do mais é uma ameaça constante à vida privada.

Queixava-se do peso de não mais poder dizer as coisas de maneira espontânea, de se ver obrigado a viver na defensiva. Em 1970, deixou de escrever cartas. Descobriu que alguém, cujo nome não revelou, havia vendido cartas suas para uma universidade dos Estados Unidos. A partir de então, só falava com os amigospor telefone.

Teve clara noção do que seria essa transformação sem volta numa noite de 1967 , dias depois da publicação do livro, durante uma festa em Buenos Aires. Quis conversar com Rodolfo Walsh, um velho companheiro da época pioneira da Prensa Latina, quando os dois moravam na Havana do começo da revolução. Mas havia tanta gente, tanto ruído, tanto borboletear ao redor do escritor subitamente famoso, que não conseguiram. Ficaram, atônitos e desolados, olhando um para o outro.

Nunca mais se viram.

Foi, contou ele, a despedida da solidão. Sentiu que, a partir daquele dia, jamais conseguiria ficar sozinho.

Ou, quem sabe, tenha sido exatamente o contrário: a partir daquela noite, nunca mais deixou de viver na solidão da fama absoluta, arrasadora. Lutando, sempre, para continuar a ser o mesmo de antes. Sabendo que era uma tarefa impossível, mas que tinha de ser tentada. Porque, tentando, no fundo da sua alma ele continuou a ser o Gabo de sempre.

Eric Nepomuceno é autor, entre outros, de "Antologia Pessoal" e "A Memória de Todos Nós", ambos editados pela Record. Traduziu vários livros de Gabriel García Márquez.

Para baixar em PDF:"A Educação Brasileira na Primeira Onda Laica: do Império à República"

Cunha, Luiz Antônio. A Educação Brasileira na Primeira Onda Laica : do Império à República. Rio de Janeiro : Edição do Autor, 2017.

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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Dossiê "marxismo, sexualidade e gênero"

O dossiê "marxismo, sexualidade e gênero" é uma tentativa dos marxistas de enfrentar o desafio teórico e político de debater a problemática da diversidade sexual e de gênero. Discursos e documentos produzidos sobre o tema por militantes e partidos; pesquisas recentes fundamentadas no marxismo; obras e textos sobre a história da diversidade sexual e da construção social e política da sexualidade e, finalmente, algumas contribuições do debate feminista no seu questionamento e convergências com a teoria marxista.

O dossiê está dividido em quatro partes. A primeira é dedicada para textos, discursos e documentos produzidos sobre o tema por militantes e partidos, em diferentes contextos históricos. A segunda parte reúne pesquisas recentes que foram fundamentadas no marxismo e, em muitos casos, em diálogo com outros referenciais teóricos. A terceira parte traz obras e textos sobre a história da diversidade sexual e da construção social e política da sexualidade. E, na quarta parte, há indicações relacionadas ao debate feminista, que traz importantes desafios e críticas ao marxismo, mas que também apresenta certos elementos de continuidade em relação a este.

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